4 de julho de 2009

      





 


Esquecidas e fatais


Por José Antonio Mariano



Doenças, como leishmaniose, doença do sono, verme da Guiné, hanseníase, doença de Chagas, malária, tuberculose, elefantíase, tracoma, dengue, entre outras, não chamam a atenção da indústria farmacêutica, que não investe em pesquisas de novos fármacos destinados ao tratamento de tais enfermidades; no entanto empresas, como Merck, GSK, Pfizer, entidades – DNDi (sigla em inglês para Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas, Médicos Sem Fronteiras (MSF) e outros –, provam que é possível tratar dessas patologias, tornando-as menos fatais e menos esquecidas.

Se o Departamento de Defesa dos EUA fosse um país, seria o 16o mais rico do mundo. Isso porque o orçamento do Pentágono, para 2009, é de US$ 540 bilhões mais despesas adicionais das guerras do Afeganistão e Iraque, chegando, portanto, a US$ 711 bilhões. Ficam de fora ainda algumas despesas com serviço de inteligência e veteranos de guerra. Com esse orçamento, o Pentágono movimenta mais recursos que o PIB de países, como Austrália, Turquia, Tailândia, Argentina, Holanda, Irã e Polônia. Segundo o Sipri (Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz), com sede na Suécia, em dez anos, os recursos gastos com material de defesa em todo o mundo subiram 45% chegando a um total de US$ 1,3 trilhão em 2007. Em paralelo a esses gastos prodigiosos em armas, uma legião impressionante de pessoas, vivendo sobretudo em países em desenvolvimento, não tem acesso a medicamentos.

O pior é que não está se falando de medicamentos para doenças comuns, como depressão, arritmias cardíacas, esofagites, cerebrovasculares. São doenças também comuns, mas que não merecem por parte dos governos e do setor privado uma abordagem mais agressiva. É o caso da doença do sono, verme da Guiné, hanseníase, leishmaniose visceral, doença de Chagas, malária, tuberculose, ascáride, esquistossomose, elefantíase, tracoma, pneumonia clássica – não a epidêmica –, doenças diarreicas, oncocercose (cegueira dos rios), dengue e diversas e graves avitaminoses, como beribéri, entre outras, matam todos os anos mais de 15 milhões de pessoas no mundo. A doença do sono (Tripanossomíase humana africana ou HAT), por exemplo, ameaça 60 milhões de pessoas em 36 países e devastou muitas comunidades na África subsaariana no século passado.

A incidência dessas doenças deveria despertar mais o interesse dos governos e do setor privado. A ascáride afeta 173 milhões de pessoas; a esquistossomose, 166 milhões; a elefantíase, 46 milhões; o tracoma, 33 milhões; a cegueira do rio, 18 milhões. No Brasil, a leishmaniose afeta mais de 50 mil pessoas. Transmitida por picada de mosquito infectado, pode desfigurar suas vítimas, corroendo a boca, o nariz e o esôfago. O protozoário invade o sistema de defesa, acomete o pâncreas e pode levar à morte por infecções secundárias. A elefantíase, causada pelo verme Wuchereria bancrofti, oclui o sistema linfático e deixa os doentes com seios, braços, pernas ou testículos enormes. Calcula-se que afeta mais de 100 mil pessoas só no Brasil (no mundo são 120 milhões). Com a tuberculose, a situação é crítica. A doença afeta 16 milhões de pessoas no mundo, e, mesmo assim, nenhuma nova droga foi desenvolvida nos últimos 30 anos.

Orientadas para o lucro

Segundo Fernando Nobre, presidente da AMI (Fundação de Assistência Médica Internacional), de Lisboa, Portugal, cerca de 40 mil crianças morrem diariamente por insuficiente cobertura dos programas de vacinação e por inacessibilidade aos medicamentos eficazes já existentes nomeadamente para as infecções intestinais e respiratória. “Desde 1975, apenas 25 novos fármacos foram lançados no mercado para o combate a doenças tropicais, dos quais 12 para as afecções veterinárias.” A OMS (Organização Mundial da Saúde) diz que foram 21, incluindo tuberculose, ainda que essas enfermidades constituam mais de 11% da carga global da doença. Durante o mesmo período, 1.535 medicamentos foram registrados para outras enfermidades, conforme atesta P Chirac, E Torreele (Lancet. 2006 May 12;1560-1). A disparidade entre os números dá o que pensar.

“A indústria farmacêutica mundial está orientada para a prospecção e o desenvolvimento de drogas, que lhe assegurem um ROI (Return Over Investiment)”, diz Avana Büllow Smith, consultora da OpenScience, uma start up americana orientada para o desenvolvimento de pesquisa biológica. Isso porque um longo e exaustivo trabalho de pesquisas e testes é realizado, até que um novo medicamento esteja pronto para chegar ao mercado. São cerca de dez anos desde o início dos estudos à validação do remédio, processo que custa caro às grandes indústrias farmacêuticas. Para se ter uma idéia, as 11 novas drogas aprovadas em 2005 consumiram recursos da ordem de US$ 39 bilhões. “Cada dia de pesquisa custa em torno de US$ 1 milhão”, revela Carlos Guimarães, diretor executivo da Biocancer, companhia dedicada à pesquisa na área de oncologia.

Um estudo recente sobre o financiamento mundial de inovação para doenças negligenciadas (G-Finder1, na sigla em inglês) revelou que menos de 5% desse financiamento foi investido no grupo das doenças extremamente negligenciadas, como doença do sono, leishmaniose visceral e doença de Chagas, ainda que mais de 500 milhões de pessoas sejam ameaçadas por essas três doenças parasitárias [Moran M, Guzman J, Ropars AL, McDonald A, Jameson N, et al. Neglected disease research and development: how much are we really spending? PLoS Medicine. 2009;6(2)]. E isso não se deu por falta de dinheiro.De acordo com a ONG MSF, gastam-se anualmente US$ 100 bilhões em pesquisas médicas no planeta. Estima-se que, para dar um alento importante à investigação das moléstias esquecidas, seriam necessários US$ 3 bilhões anuais.

Apenas R$ 200 milhões

A OMS alerta que só as doenças tropicais negligenciadas atingem 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, apesar de o custo médio dos tratamentos não superar US$ 0,50 por pessoa. Dada a enorme necessidade de tratamentos para os pacientes, a MSF comprometeu-se a financiar a DNDi com 18 milhões de euros (cerca de R$ 54 milhões), durante os próximos seis anos, e continuará fornecendo apoio por meio de seus programas no campo para as atividades operacionais e de pesquisa clínica necessárias para que a DNDi avance com seu portfólio de desenvolvimento de medicamentos. Em entrevista ao jornal The Guardian, em outubro de 2005, os doutores David Molyneux e Alan Fenwick, respectivamente do Liverpool School of Tropical Medicine e Imperial College London, fizeram análises interessantes.

Eles comentaram que dados coletados na África mostraram que, à época, US$ 200 milhões é suficiente para atuar de forma mais agressiva contra a malária, a doença do sono, o verme da Guiné e outras doenças infectossanitárias.“Isso é apenas uma fração do que é despendido no combate ao HIV e à tuberculose”, afirmou o dr. Molyneux. “Se dos 95% da verba destinada à malária, ao HIV e à tuberculose apenas 5% fossem destinados ao combate das doenças tropicais negligenciadas, teríamos uma reversão importante do quadro atual, em termos de recuperação da saúde das população.” De fato, a África, sobretudo a subsaariana, o subcontinente indiano, a China rural e a América Latina são as regiões que mais preocupam os especialistas em relação às doenças negligenciadas. Mas, democraticamente, essas doenças também atingem as nações ricas, e os Estados Unidos também têm sua cota de participação.

Por lá, existe uma carga ampla e oculta de doenças causadas por um grupo de infecções parasitárias, bacterianas e congênitas, crônicas e debilitantes ligadas, sobretudo, à pobreza. Assim como as doenças tropicais negligenciadas e suas correspondentes nos países em desenvolvimento, as infecções negligenciadas da pobreza nos Estados Unidos afetam desproporcionalmente as populações carentes e minorias. Entre as principais infecções negligenciadas, estão as helmínticas, como toxocaríase, estrongiloidíase, ascaridíase e cisticercose; as protozooses intestinais, como tricomoníase intestinal; algumas infecções bacterianas zoonóticas, incluindo leptospirose; as infecções transmitidas por vetores, como doença de Chagas, leishmaniose, febre das trincheiras e dengue; e as infecções congênitas, como citomegalovírus (CMV), toxoplasmose e sífilis.

Pobreza nos Estados Unidos

Essas doenças ocorrem entre negros, que vivem no delta do Mississippi e nas regiões do sul do país, em zonas urbanas periféricas e em algumas áreas da fronteira entre os Estados Unidos e o México. Outros afetados são os imigrantes e as populações brancas carentes, que vivem nos Apalaches. Dados preliminares da carga dessas doenças indicam que milhares de americanos pobres sofrem dessas infecções crônicas. As recomendações de políticas específicas incluem a vigilância ativa para determinar a estimativa da carga das doenças na população; os estudos epidemiológicos para indicar a extensão da transmissão da doença de Chagas e de outras infecções; os tratamentos focais ou em massa, controle de vetores e pesquisa de novas ferramentas de controle (Hotez PJ. Neglected infections of poverty in the United States of América. PLoS Neglected Tropical Diseases 2008;2(6):256).

Tratar essas doenças com os mecanismos atuais de que dispõe é uma tarefa árdua e, não raras vezes, recheada de efeitos colaterais, o que torna urgente o desenvolvimento de novas drogas. Os únicos remédios disponíveis para o tratamento da leishmaniose são da década de 1950. O mais eficaz entre eles, o antimônio intravenoso, causa dores horríveis, além de afetar o funcionamento do coração, dos rins e do fígado. A pentamidina, outra droga indicada para o tratamento, levou 8% dos pacientes à morte, além de favorecer o aparecimento de diabetes. Há uma medicação mais efetiva e moderna, o ambissome, mas o preço é proibitivo: US$ 5 mil (mais de R$ 10 mil). Com a doença do sono, os prognósticos são mais favoráveis, uma vez que cientistas dos Estados Unidos apresentaram uma combinação de drogas mais resolutivas e muito menos tóxicas que as atualmente em uso.

Em 2008, durante a 57a Reunião Anual da Sociedade Americana de Higiene e Medicina Tropical, realizada em Nova Orleans, Louisiana, EUA, pesquisadores americanos apresentaram um estudo de fase 3, multicêntrico, para tratamento da fase avançada da doença do sono, baseada na associação de nifurtimox oral e eflornitina intravenosa, com resultados animadores. O ensaio clínico envolveu 280 pacientes e foi concluído em cinco anos. Fatal, se não tratada, a doença do sono, em sua primeira fase, frequentemente não é diagnosticada, e a maioria dos pacientes não é tratada até chegar à segunda fase. As atuais opções de tratamento para a fase 2 da doença ou são tóxicas ou de difícil utilização nas zonas rurais, remotas e extremamente pobres onde a doença ocorre. Outro fato de grande preocupação é o potencial aumento da resistência às duas drogas disponíveis.

Drogas contra a malária

Essa é a preocupação também com a malária, uma vez que, de acordo com a OMS, 90% dos pacientes maláricos no mundo já não respondem ao tratamento com cloroquina, pirimetamina e sulfadoxina, os remédios mais baratos e eficazes. Em 2001, a Wellcome Trust, fundação britânica ligada à P&D na área médica, emitiu relatório afirmando que o investimento em pesquisa no mundo para malária era de US$ 42 por caso fatal. Para a Aids, o investimento era 80 vezes maior, e que, por isso, os 300 milhões de pessoas com malária no mundo ainda teriam de esperar muito para se beneficiar de uma nova droga. Esse “muito” parece ter chegado não pelas mãos da indústria farmacêutica, mas por ONGs, como a MSF e a DNDi. Juntas, as entidades desenvolveram duas combinações em dose fixa (ASAQ – artesunato-amodiaquina e ASMQ – artesunato-mefloquina) para o tratamento da malária.

“Esses tratamentos não são protegidos por patente e, portanto, podem ser fabricados por diversos laboratórios, permitindo uma produção de medicamentos adaptada às necessidades do paciente, a preço competitivo, e em quantidade suficiente”, alerta o dr. Christophe Fournier, presidente do conselho internacional da MSF. O esquema ASQM, aliás, é um dos responsáveis pela diminuição do número de casos de malária na Amazônia Legal (uma área que engloba os Estados Acre, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá, Mato Grosso e Tocantins). De janeiro a maio de 2008, foram notificados 121.132 casos da doença, contra 185.983, no mesmo período em 2007 – um decréscimo de 34,8% nos casos. É a queda mais expressiva desde 2005. O ASMQ é utilizado desde o ano passado para o tratamento da malária, causada pelo Plasmodium falciparum, responsável por 16% dos casos no Brasil.

“A maior vantagem do ASMQ é sua boa aceitação pela população, uma vez que, ao contrário dos remédios utilizados antes, ele não causa efeitos colaterais, como dor de cabeça e náuseas, além disso, o tratamento dura só três dias”, afirma o dr. Pedro Tauil, médico sanitarista, especialista em malária, da UnB (Universidade de Brasília). Com poucos efeitos colaterais e com um período curto de tratamento, a adesão do paciente está sendo bem maior em relação aos outros esquemas terapêuticos. Como o P. falciparum causa a forma mais agressiva da doença, o número de internações diminuiu 45,8% nos cinco primeiros meses do ano: de 2.910, em 2007, para 1.576, em 2008. Inicialmente, o produto era importado; desde abril deste ano, contudo, a Farmaguinhos – Instituto de Tecnologia em Fármacos da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) produz o medicamento em parceria com a DNDi.

Tuberculose resistente

Entre todas as doenças negligenciadas, a tuberculose talvez seja a menos esquecida. Não tanto porque dispõe de vários fármacos para seu combate, mas porque seus sintomas são bastante conhecidos. Isso não faz, entretanto, com que novas drogas surjam. "Precisamos de um remédio que cure a tuberculose em dois meses e que seja eficaz contra a tuberculose multirresistente”, diz o dr. Giorgio Roscigno, presidente da ONG Global Alliance for TB Drug Development. “Se nenhuma droga for descoberta, 35 milhões de pessoas morrerão de tuberculose até 2020”, alerta. O grande problema é que a terapia atual deve ser seguida durante seis meses. Por isso, muitos pacientes não se tratam direito, dando origem a bacilos resistentes. Isso porque os remédios acabam atuando apenas sobre os micro-organismos mais fracos, permitindo a proliferação dos mais resistentes.

Custa à tuberculose multirresistente responder à medicação. Enquanto o tratamento normal custa US$ 20, para tratar a variação resistente é necessário US$ 4 mil. Por causa do aumento da resistência dos micro-organismos, é necessário descobrir novas drogas. Mas, de acordo com a entidade americana The Pharmaceutical Research and Manufacturers of America, que reúne pesquisadores e empresas farmacêuticas, em 2000, havia apenas quatro remédios contra doenças negligenciadas em testes. Todos estão na fase inicial e foram desenvolvidos por pequenas empresas. "Ainda não há garantia de que a pesquisa do medicamento irá para frente. Se for, ela pode levar dez anos para ser concluída”, diz o dr. Carlos Morel, diretor do Programa Especial de Pesquisa e Treinamento em Doenças Tropicais ligado à OMS. Só para comparar, estão sendo pesquisadas dez drogas para hiperatividade.

A situação da tuberculose no Brasil melhorou. O país passou da 16a para a 18a posição no ranking dos 22 países com maior projeção de incidência de tuberculose no mundo. A taxa por cem mil habitantes estimada caiu de 50 para 48 casos por cem mil habitantes, de acordo com o Relatório de Controle Global da Tuberculose 2009, lançado em março deste ano pela OMS, no 3o Fórum Stop TB. O Ministério da Saúde já fechou os dados de 2007, e, embora eles ainda não tenham sido repassados para a OMS, o número de casos foi bem menor que o estimado: cerca de 80 mil casos e uma taxa de 39 casos por cem mil habitantes. Entretanto o país ainda tem uma taxa de cura baixa de 77%, enquanto a OMS preconiza 85%. Em termos de tuberculose resistente, o índice brasileiro é de apenas 0,9%, bem menor que a média global de 4,9% sobre os casos registrados da doença.

As ações das farmacêuticas

Mesmo se considerar somente o fator mercado, vale a pena investir no desenvolvimento de moléculas para essas doenças. E não é verdade que a indústria não faça isso. À parte, o fato de que o Exército dos Estados Unidos investe pesado em uma vacina contra a malária (tendo financiado inclusive o dr. Victor Nussenzweig, brasileiro, da New York University Medical School), várias iniciativas da indústria estão em curso. Desde maio de 2007, há um acordo entre a OMS e a Merck KGaA para o combate do verme causador da esquistossomose, que provoca anemia severa e prejudica o desenvolvimento e o crescimento das crianças. Segundo o acordo, a Merck cederá 200 milhões de comprimidos de seu medicamento praziquantel, por US$ 80 milhões, durante dez anos. Na África, os custos de tratamento de doenças negligenciadas são mantidos a preços compatíveis com a renda das populações, graças a algumas indústrias.

É o caso da Merck, com o Mectizan®, indicado para oncocercose ou “cegueira do rio”, a segunda maior causa de cegueira infecciosa em todo o mundo. A GSK fornece o albendazol, antiparasitário, e a Pfizer, a azitromicina, para doenças do trato respiratório. As populações de países, como Tanzânia, Uganda, Burkina Faso, Mali, Camarões e Nigéria, têm se beneficiado muito dessa parceria. No Egito, a proporção de pessoas afetadas pela esquistossomose diminuiu de 20% para 2% em 15 anos. O mesmo ocorre na China, cujos convênios entre a indústria farmacêutica local e o governo fizeram com que 350 milhões de pessoas pudessem se tratar da elefantíase. ONGs e governos também têm se esforçado na busca de novas drogas. A DNDi, em parceria com a MSF, revelou que possui dados promissores para uma importante melhora no tratamento da doença do sono, da leishmaniose visceral e da doença de Chagas.

O dr. Carlos Morel, um dos fundadores do Fórum Global para Pesquisa em Saúde e ex-responsável pelo programa de pesquisa sobre doenças tropicais da OMS, afirmou, durante o 11o fórum, realizado em Pequim, em novembro de 2007, que muitos remédios gratuitos disponíveis na rede pública de vários países não chegam aos pacientes por uma questão de custo de logística, o que demonstra que não basta desenvolver novas drogas; é preciso fazê-las chegar a quem necessita. Tanto é assim que o governo brasileiro, que iniciou, em 2007, um programa de pesquisa que se concentrará em dengue, malária, doença de chagas, leishmaniose, tuberculose e lepra, procura disponibilizar os recursos medicamentosos às populações mais distantes dos centros urbanos. Os resultados já foram alcançados como ilustra a diminuição do número de casos de malária na Amazônia.

Dinheiro para armas

O fórum realizado na China enfatizou a necessidade da realização de associações governo e empresas de pesquisa, para garantir ao setor privado que recuperará seu investimento e ao público que os produtos serão a um preço baixo. E a atenção dessas doenças não terá de vir apenas das grandes multinacionais farmacêuticas de países, como Estados Unidos, Japão ou os da Europa, mas também de países em desenvolvimento, como Brasil, África do Sul, China e Rússia. “A OMS considera que os acordos com o setor privado são fundamentais para oferecer tratamento gratuito às populações mais pobres do mundo e erradicar as doenças”, assevera David Heymann, vice-diretor-geral do setor de doenças contagiosas da OMS. "Com frequência, essas doenças podem ser eliminadas totalmente, graças ao emprego de estratégias corretas", complementa Margaret Chan, diretora-geral da entidade.

Isso mostra claramente que ações combinadas, que reúnam entidades internacionais, ONGs, poder público e privado, podem ser bastante resolutivas no sentido de atenuar, ou mesmo erradicar várias dessas doenças, que, esquecidas no escaninho da pesquisa, continuam vitimando mundo afora. Mas não basta isso somente. É preciso que haja uma reavaliação da aplicação dos recursos públicos, notadamente pelos países menos desenvolvidos, às voltas com calamidades, que devastam seu patrimônio natural, ou guerras, que os fazem canalizar verbas dispendiosíssimas para desenvolvimento, aquisição, manutenção e aplicação de materiais de defesa. O caso da Índia é emblemático. Afora a fome que grassa solta pelo país, a divisão do país por castas condena os menos favorecidos à marginalidade absoluta e à morte por doenças, que praticamente não são conhecidas pelas castas superiores; veja a Aids.

A população da Índia, em 2007, era de 1.129.866.154 habitantes. Desses, estima-se que 2,47 milhões convivam com o vírus da Aids. Pessoas na faixa dos 15 aos 49 anos portadoras do vírus eram 0,3% dos infectados, e, na mesma faixa, entre as mulheres, 38% delas estavam contaminadas. O número de soropositivos indianos foi motivo de comemoração em julho de 2008, porque, embora ainda alarmente, era menor que se imaginava. A Índia era considerada o país com o maior número de pessoas com HIV no mundo – com 5,7 milhões de infecções, mas a nova estimativa fica abaixo dos números da África do Sul e da Nigéria. O número foi calculado com a ajuda de agências internacionais, incluindo a ONU e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. "Em termos de vidas afetadas, a cifra ainda é muito alta, e isso é preocupante”, diz Anbumani Ramadoss, ministro da Saúde da Índia.

Porta-aviões doentio

É aqui que uma conta madrasta se apresenta. O país tem um histórico de rivalidade com o vizinho Paquistão, com quem já entrou em guerra por três vezes (1948, 1965 e 1971). Por conta disso, suas despesas em armas são enormes, o que, sem dúvida, prejudica o esforço no combate à Aids e na erradicação de outras doenças, tais como tuberculose, dengue e malária. A Índia possui um arsenal nuclear invejável e custoso. Só o míssil Agni-II, capaz de carregar ogivas nucleares, custa US$ 8 milhões cada um; o país tem 50 desses. O Prithvi é outro míssil com capacidade nuclear. A Índia possui 300 a um custo total de US$ 200 milhões. Mísseis complementares e de igual capacidade – Dhanush e Sagarika – não são menos caros. O país participa do consórcio na construção de um avião de caça de última geração, o qual reúne a Rússia e possivelmente o Brasil e custará para cada participante algo em torno de US$ 6,6 bilhões.

Além disso, a Índia está adquirindo 60 helicópteros Bell Textron 407 e Eurocopter AS550 C3 Fennec a um custo total de US$ 600 milhões. Gastará ainda mais US$ 888 milhões pela compra de aviões de caça MiG-29 da Rússia, US$ 650 milhões para arrendar um submarino nuclear russo por dez anos e mais US$ 5,6 milhões por cada unidade de tanque de batalha T-90 também da Rússia. “Ninguém duvida que a Índia precisa se defender, até porque, além do Paquistão, tem a China com quem teve uma pequena, mas intensa, disputa de fronteira em 1962”, afirma Juarez Egger Real, sociólogo fluminense. “Mas talvez os gastos militares indianos sejam realmente muito expressivos, tendo em vista as necessidades sociais tão prementes no país.” Para ilustrar, ele compara com o Brasil. “Seria o mesmo que, não tendo um sistema universal de distribuição de medicamentos ARV, buscássemos a bomba atômica.”

Em 1986, quando foram reportados os primeiros casos de Aids no país, o JAMA (Journal of American Medicine Association) afirmou em editorial que a falta de laboratórios científicos, pesquisa, equipamentos e pessoal médico treinado colaborava decisivamente para o avanço da Aids na Índia. Foi só no ano seguinte que um programa nacional de combate à Aids foi lançado. Mas patinou por não possuir expertise – o que era comum na maioria dos países – e nem por contar com substanciais verbas do governo, para levar projetos adiante. A pobreza na Índia é emblemática, e a fome é institucional. Cerca de 25% da população vive abaixo da linha de pobreza, o que dificulta muito ações preventivas de HIV e de outras doenças. Enquanto isso, a Marinha indiana despeja US$ 1,756 bilhão em um porta-aviões, que está sendo reformado na Rússia e que só será entregue em 2012. Se for entregue...

José Antonio Mariano
mariano@editoraphoenix.com.br

Leitura complementar

Pécoul B, et al. Access to essential drugs in poor countries – a lost battle? JAMA. 1999 Jan 27;281(4).
Esse artigo trata do problema de acesso a medicamentos de qualidade para o tratamento de doenças, que afetam predominantemente o mundo em desenvolvimento: medicamentos de baixa qualidade e falsificados; falta de acesso a medicamentos essenciais por causa da produção escassa e dos altos custos; necessidade de se realizar pesquisas, para definir a utilização otimizada e motivar a pesquisa e o desenvolvimento de novos medicamentos para os países em desenvolvimento; consequências dos acordos recentes assinados no âmbito da OMC – Organização Mundial de Comércio. Para acessar o artigo completo, na versão em inglês (formato PDF) clique em: http://www.dndi.org/cms/public_html/images/article/229/JAMA.pdf

Trouiller P, et al. Drug development for neglected diseases: a deficient market and a public-health policy failure.The Lancet. 2002 June;359:2188-94.
Há falta de medicamentos efetivos, seguros e acessíveis para controlar as doenças infecciosas, que provocam uma alta mortalidade e morbidade em pessoas pobres que vivem em países em desenvolvimento. Esse paper analisa os resultados de P&D de medicamentos nos últimos 25 anos e revisa as atuais iniciativas públicas e privadas, que têm como objetivo corrigir o desequilíbrio entre a pesquisa e o desenvolvimento, que deixa sem a atenção necessária às doenças predominantes em países em desenvolvimento.

Zumla A. Reflection & reaction. Lancet Infect Dis. July 2002;2:393.
Recentes iniciativas vêm objetivando estimular o interesse pelo desenvolvimento e pela oferta de medicamentos para três doenças: HIV/Aids, malária e tuberculose. As doenças extremamente negligenciadas continuam causando taxas significativas de morbidade e mortalidade em países em desenvolvimento. Esse paper é uma introdução rápida para uma série de artigos que ressaltam as prioridades da pesquisa e do desenvolvimento para a doença do sono, leishmaniose visceral e malária. Para acessar o artigo completo, na versão em inglês (formato PDF), clique em: http://www.dndi.org/cms/public_html/images/article/227/zumla.pdf

Legros D, et al. Treatment of human african trypanosomiasis – present situation and needs for research and development. Lancet Infect Dis. 2002;2:437-40.
Esse artigo trata da tripanossomíase humana africana (doença do sono), que ressurgiu nos anos de 1980. No entanto progressos mínimos foram alcançados no tratamento dessa doença nas últimas décadas. Esforços de pesquisa e desenvolvimento devem ser feitos com o objetivo de desenvolver novos compostos. O artigo afirma ainda que os programas de pesquisa de outros compostos devem receber o apoio necessário, para garantir o desenvolvimento de novos medicamentos. Para acessar o artigo completo, na versão em inglês (formato PDF), clique em: http://www.dndi.org/pdf_files/tryps.pdf

Guérin P, et al. Visceral leishmaniasis: current status of control, diagnosis, and treatment, and a proposed research and development agenda. Lancet Infect Dis. 2002 Aug;2:494-501.
A leishmaniose visceral é comum nos países menos desenvolvidos, com cerca de 500 mil novos casos por ano. Por causa da diversidade das situações epidemiológicas, nenhum diagnóstico, tratamento ou controle atenderá a todos. Esse artigo retrata a situação atual e as perspectivas de diagnóstico, tratamento e controle para a leishmaniose visceral e lista algumas prioridades para a pesquisa e o desenvolvimento. Para acessar o artigo completo, na versão em inglês (formato PDF), clique em: http://www.dndi.org/cms/public_html/images/article/231/LID leish.pdf

Pécoul B. New drugs for neglected diseases: from pipeline to patients.
Nesse artigo, o diretor executivo da DNDi mostra como, nos países desenvolvidos, as pesquisas financiadas publicamente conseguiram levar a avanços significativos as áreas de biologia molecular, química e engenharia. Avanços que vêm sendo usados pela indústria farmacêutica para um número crescente de doenças. Como resultado, os pacientes têm acesso a novos medicamentos que são mais bem tolerados, mais específicos e mais efetivos que os medicamentos utilizados até então. Para acessar o artigo completo, na versão em inglês (formato PDF), clique em: http://www.dndi.org/pdf_files/new_drugs.pdf




 
  25/5/2009

Especial Pharma em Destaque__________________________________

A gente não quer só remédio

As estrangeiras estão chegando (será?)

DECs, decididos e dedicados parceiros

Esquecidas e fatais

Essa não é uma marolinha

O gigante retém o passo

O grande jogo do Wal-Mart em genéricos

 

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25/5/2009 Esquecidas e fatais

1/3/2009 Essa não é uma marolinha

15/12/2008 O gigante retém o passo

6/10/2008 DECs, decididos e dedicados parceiros

9/8/2008 A gente não quer só remédio

9/4/2008 As estrangeiras estão chegando (será?)

2/10/2007 O grande jogo do Wal-Mart em genéricos

6/8/2007 Remédios na rede

5/6/2007 Varejo que se expande no atacado

4/5/2007 Câncer, as mil faces de um inimigo a ser exterminado - Capítulo VI

3/4/2007 Câncer, as mil faces de um inimigo a ser exterminado - Capítulo V

1/3/2007 Câncer, as mil faces de um inimigo a ser exterminado - Capítulo IV

1/3/2007 Câncer, as mil faces de um inimigo a ser exterminado - Capítulo III

3/1/2007 Câncer, as mil faces de um inimigo a ser exterminado - Capítulo II

19/12/2006 Câncer, as mil faces de um inimigo a ser exterminado - Capítulo I

13/9/2006 Drogas contra drogas

 
 

 
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